A histeria tomou conta da “imprensa lixo” – como apelidada pelos camponeses – de Rondônia após o episódio envolvendo o influenciador e latifundiário João Martins, baleado no pé durante um ataque ainda sob investigação na Fazenda Norbrasil, em Nova Mutum Paraná, zona rural de Porto Velho. Em questão de horas, os portais locais reacionários já falavam em “emboscada”, “guerra rural”, “100 tiros de fuzil”, “tentativa de tortura” e até “guerrilha camponesa”. A autoria, sem surpresas, seria dos “criminosos ligados à LCP”. Afinal, o alarde do “terror vermelho” rende a propaganda da imprensa latifundiária.
Em diferentes matérias produzidas pelos veículos pró-latifúndio se admitem que “as circunstâncias do crime serão investigadas”. No entanto, não excluiu as referências, dignas de filmes de ação, como “caminhonete blindada crivada de tiros de fuzil”, “fuga pela mata”, “horas escondido no escuro” e, mesmo, “perseguição cinematográfica”. O espetáculo montado visa responsabilizar as famílias camponesas da região de Nova Mutum Paraná do terrorismo característico da pistolagem e latifúndio. Conforme denúncias dos camponeses da Área Tiago Campin dos Santos 3 ao AND.
No afã de demonizar os camponeses, a imprensa lixo de Rondônia revela o que se tenta esconder pelo próprio monopólio de imprensa latifundiário: o grau de militarização e enfrentamento armado existente no campo. A imprensa local latifundiária, ao inflar manchetes sobre “ataques armados”, “emboscadas” e “mais de 200 tiros de fuzis 7.62”, acaba confessando que existe enfrentamento armado. No entanto, quando camponeses utilizam da sua autodefesa, é sob o slogan do “terrorismo rural”, quando pistoleiros assassinam camponeses, queimam casas e destroem produções, é “conflito agrário”.
Camponeses do acampamento Tiago Campin dos Santos 3 denunciam ataques da PM-RO e pistoleiros em RO – A Nova Democracia
Terrorismo do latifúndio contra famílias camponesas em Rondônia
O que há fartamente documentado são as operações policiais assassinas contra os camponeses em luta pela terra. Caso emblemático foi o assassinato do camponês Raimundo Nonato, membro da Liga dos Camponeses Pobres (LCP), pelas tropas do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) durante invasão na Área Valdiro Chagas (RO) no dia 8 de agosto. Ademais dos inúmeros e denunciados casos de policiais que cumprem serviço de seguranças particulares de latifundiários, conforme confessado pelo próprio latifundiário João Martins em entrevista do AND.
Exclusivo: ‘Se tem algo ilegal, é com a Corregedoria deles’, diz sobrinho do ‘Galo Velho’ ao admitir contratação de policiais contra camponeses – A Nova Democracia
Casos de verdadeira pistolagem fardada resultam em camponeses mortos ou desaparecidos, inclusive em áreas sob litígio fundiário, como o latifúndio Fazenda Norbrasil. Em 2023, o jovem Patrick Gasparini Cardoso foi executado covardemente durante uma incursão policial ocorrida na região, em operação jamais esclarecida. O episódio levanta novamente a suspeita de conluio entre a polícia e o latifúndio local.
O latifundiário Antônio Martins, conhecido como “Galo Velho” e tio de João Martins, é figura central da propriedade e aparece frequentemente no centro de conflitos fundiários, processos, disputas de terra e operações policiais na região. Segundo relatório do “Mapa de Conflitos”, Martins é “o maior grileiro” do estado de Rondônia e usa de empresas para viabilizar a grilagem de terras públicas. O observatório também acusa o latifundiário de promover ataques aos camponeses e causar graves impactos ao meio natural, como desmatamento, erosão do solo, queimadas e poluição de rios. Mas, curiosamente, contra ele não usam expressões como “terror”, “guerra”, “ataque armado”.
As manchetes apocalípticas também omitem que a própria situação fundiária da Norbrasil é suspeita. Sem cadeia dominial completa, sem perícia oficial divulgada, e inserida em um estado onde, segundo o famoso geógrafo e pesquisador Ariovaldo Umbelino, “80% das terras têm origem em grilagem”, qualquer afirmação categórica de “propriedade legítima” é, no mínimo, precipitada.
Enquanto isso, os ataques comprovadamente cometidos contra camponeses na mesma região são tratados com silêncio ou notas tímidas. Em março de 2024, homens armados à paisana invadiram o Acampamento Ipê, algemaram camponeses, espancaram famílias e entregaram os detidos a policiais já posicionados numa lavoura de soja nas proximidades. Houve destruição de casas, queima de roças e roubo de mantimentos. Tudo registrado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) e por depoimentos reunidos por AND.
A violência historicamente associada a latifundiários e grupos de segurança privada é ainda mais brutal. Denúncias públicas responsabilizam, por exemplo, velhos mandantes por assassinatos de lideranças como Ivo Martins, Tonha e Serafim nos anos 2000 – casos envolvendo emboscadas covardes, execuções e desaparecimentos. Em 2025, Alex e Alessandro dos Santos Santana foram mortos por PMs durante reintegração em Machadinho d’Oeste, episódio classificado pela CPT como “caçada humana”.
Ao longo dos últimos anos, a região de Machadinho e Nova Mutum registra ações conjuntas de grupos paramilitares rurais com agentes do Estado. Helicópteros sobrevoando acampamentos por dias, prisões arbitrárias, operações de intimidação e monitoramento ostensivo. Em diversos relatos, paramilitares atuam sincronizados com as tropas policiais. Mas nada disso provoca o escândalo midiático, reservado a um único disparo contra um “fazendeiro”.
Nesse contexto surge a autodefesa camponesa – em resposta concreta à violência sistemática e historicamente documentada do latifúndio. Famílias desalojadas, casas destruídas, roças queimadas e ameaças de morte constantes produzem inevitavelmente formas organizadas de resistência. O que a imprensa reacionária chama de “guerrilha” é, para muitos posseiros e camponeses sem terra, como única forma de sobreviência.
O caso da área Tiago Campin dos Santos, em Nova Mutum, é emblemático. Entre 2020 e 2021, dezenas de operações policiais, com helicópteros, tropa de choque, da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e apoio aéreo, foram enviadas para esmagar o acampamento. O ex-capitão-do-mato Jair Bolsonaro, em live transmitida no dia 1° de maio de 2021, babou que a “LCP tem levado terror aquele estado [Rondônia]”. Na ocasião, mais de 3 mil agentes da Força Nacional chegaram a ser mobilizados, segundo informações oficiais da época, mas não conseguiram desalojar definitivamente as famílias camponesas, que resistiram aos cercos da repressão do governo militar de Bolsonaro e generais. O episódio entrou para a história recente como uma das maiores demonstrações de autodefesa camponesa de Rondônia.
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Publicado em: 2025-12-01 18:25:00 | Autor: Redação de AND |

