Antigamente a escola ensinava
Que o negro, a negra escrava
Tinha que agradecer
A uma branca, à princesa Isabel
Que como uma santa do céu
Um milagre quis fazer.
Quis assinar a lei que alforriou
A Lei Áurea assinou
E acabou a escravidão
Agora, o escravo, a escrava e seu filho
Ganharam um novo brilho
E lhe deviam gratidão
Meu Deus do céu, como eu admirei
A princesa, o branco, o rei
Que me deram a liberdade
Agora livre, mesmo assim quis ser cativo
Porque aprendi no livro
Que devia lealdade
Treze de maio era dia de oração,
Homenagem, bendição
À princesa quase santa
Nos ensinaram que até a liberdade
Só nos veio de verdade
Pela branca, mais que infanta
Todo dia treze, todo maio era festa
Liberdade feito esta é fácil de garantir
A tal lei áurea assinada na penumbra
Jogou negro e negra em tumba
Que queriam resistir.
Eu já grandinho, numa aula de história
Vi que não havia glória em liberdade fajuta
Treze de maio foi perdendo o seu encanto
Se o herói tem que ser branco
Pra ninguém falar de luta
Por que dia treze, se em quatorze a escravidão
Em vez de senhor, patrão
dava pano, pão e pau?
Por que dia treze de abolição inconclusa
Tendo Isabel por musa e sofrimento tal e qual?
Sempre esconderam que a nossa resistência,
Nossa ação, nossa ciência
Davam frutos todo dia.
Lá em Palmares, lugar em que Zumbi tombou
A semente semeou da verdadeira alegria.
Nossos quilombos germinaram a semente
De liberdade que sente
o desejo de justiça
Agora vejo reluzirem os heróis
Gente preta como nós,
De raça, sangue, mestiça…
Quando aprendi, disso todo dia lembro,
Que em vinte de novembro
Rei Zumbi tombou na luta,
Com consciência, apostei naquela data
Que a escola não relata
Porque pede outra conduta.
Conduta esta que enfrenta o opressor
E que ao som do tambor
Se enaltece a negritude
Treze de maio é conto da carochinha
Vinte de novembro e dia
De avançar nas atitudes.
