Na última sexta-feira, 28 de novembro, moradores do bairro do Bom Parto em Maceió – um dos bairros afetados pela mineração da Braskem, realizaram uma manifestação contra a falta de água que já dura 3 meses e foram alvos de uma ação covarde do Batalhão de Operações Especiais (BOPE). O protesto se iniciou no final da tarde, quando os moradores revoltados fecharam a Rua General Hermes, e atearam fogo em pneus e pedaços de madeira em uma barricada.
Uma moradora relatou ao AND que havia em torno de 10 a 15 policiais fortemente armados, e que os policiais chegaram disparando balas de borracha e gás lacrimogêneo contra os moradores. No local haviam mulheres e crianças. “Quando eles jogaram o gás, meus olhos arderam! Eles desceram para a rua debaixo, atirando e jogando gás, nem respeitaram as crianças. Nesse momento, todo mundo ficou sufocado! Já não aguentamos mais essa situação, já são 3 meses sem água aqui!”.
As massas afirmaram ao AND que os manifestantes estavam esperando o gerenciamento de crise, unidade de negociação da Polícia Militar, na expectativa do problema ser solucionado, e foram surpreendidos pelas forças de repressão. “Estávamos apenas esperando o gerenciamento de crise, aí do nada, o BOPE aparece, disparando para o alto, também! Um detalhe, não tinha ninguém armado. Teve até um vizinho que gritou com os policiais, dizendo que aqui não era o Rio de Janeiro!”.
Moradores relataram os entraves burocráticos impostos pelo monopólio de fornecimento de água, BRK. “Nós ligamos para a BRK e eles nos mandam ligar para o líder comunitário, aí eu pergunto: ‘por que temos que terceirizar uma pessoa para solicitar isso? Sendo que somos nós que pagamos direto para a BRK!’. Foi daí que fizemos o protesto”, declarou uma moradora.
Ainda durante a entrevista, a população demonstrou total insatisfação com os políticos profissionais do velho Estado. “O prefeito JHC [João Henrique Caldas] só quer mostrar a cidade para os turistas! Ele só quer mostrar uma parte da cidade, mostrar só a capa, a parte da praia! Quem sofre de verdade é a periferia. Aqui, eu nunca o vi ele fazer nada por nós!”.
“Ainda tem esse governador, ninguém vê ele fazendo algo, só promessas e muito dinheiro da Braskem entrando no bolso dele! Quem precisava desse investimento era o povo das regiões afetadas”, referiu-se a moradora sobre o recente acordo de R$1,2 bilhão assinado entre o governo reacionário de Alagoas e a Braskem.
Moradores afirmaram que o principal culpado pela falta d’água constante é o governo de Alagoas, que entregou o sistema de água Catolé Cardoso para a Braskem por R$108,9 milhões. “Depois que a Braskem entrou aqui em Alagoas, as coisas ficaram de um jeito que eu nunca vi! Sempre tínhamos água aqui, aí depois que a mina 18 se rompeu e o governo entregou o Catolé Cardoso para a Braskem, a falta de água se tornou constante”.
Os moradores destacam, ainda, o isolamento sofrido após a destruição imposta aos bairros pela mineração da Braskem: “Aqui estamos ilhados, o estado não chega mais aqui. Nem escolas nós temos mais. As crianças precisam se locomover para outros bairros distantes se quiserem estudar. Antes tínhamos três escolas, hoje não temos mais!”.

Após o protesto, os moradores afirmaram ao AND que, mesmo a água sendo restabelecida, ainda não estava sendo suficiente para atender às demandas da população. “Depois do protesto, a água chegou, porém, eles ligam nossa água e após umas 3h eles desligam novamente, aí fica nessa. Sem falar dos altos valores das contas que chegam para pagar”.
A equipe de AND esteve in loco com as massas reprimidas pelo Bope para prestar-lhes apoio através do jornalismo independente e combativo.
‘No campo e na favela, o povo se rebela!’
A imposição do racionamento de água pelos monopólios ocorre tanto nas capitais, quanto no campo do Brasil. Camponeses do Sertão Paraibano, Cajazeiras e cidades próximas, protestaram no dia 26 de novembro contra o esvaziamento forçado das águas do Açude Engenheiro Ávidos, conhecido como Boqueirão de Piranhas.
Dezenas de manifestantes interditaram os dois sentidos da BR-230 por quase 12 horas com pneus, veículos e troncos de árvores. No mesmo momento em que a Paraíba enfrenta uma crescente estiagem, com 13 cidades do estado entrando em situação de emergência no dia 26/11, os órgãos de controle hídrico, tanto estaduais quanto federais, negligenciam a população camponesa e impõem um racionamento contra o povo.
Publicado em: 2025-12-03 16:40:00 | Autor: Giovanna Maria |

