Desde janeiro, operadores de call center da empresa AeC têm se organizado, de forma inédita, para intervir nas negociações do acordo coletivo de 2025/2026. A mobilização tem ocorrido à margem do Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicação do Rio de Janeiro (Sinttel-RJ), descrito por um(a) operador(a) em condição de anonimato como um “sindicato pelego e pró-patrão, que diariamente tem sabotado a luta dos trabalhadores, servindo como verdadeira camisa de força da classe operária.”
A AeC obteve um faturamento de R$ 2 bilhões em 2024 e um lucro líquido de R$ 125 milhões. Apesar desses lucros exorbitantes, a empresa insiste em impedir a mobilização dos operadores, inclusive lançando mão de demissões, segundo os próprios trabalhadores. Prática que chamou a atenção dos operadores, pois a empresa não tem a prática de encerrar contratos para não ter que arcar com os valores de rescisão. Além disso, os trabalhadores têm relatado diversos episódios de coação e assédio por parte de supervisores, coordenadores e gerentes para que não participem da mobilização e aceitem a paupérrima proposta apresentada.
A proposta
Segundo relatos de funcionários, nos últimos anos as reuniões para definir os pontos do acordo têm sido sempre um jogo de cartas marcadas. Além da falta de representatividade real à mesa, pautas importantes não são discutidas e o que é oferecido são reajustes mínimos.
A atual proposta da empresa é de reajuste de 4,77% para os trabalhadores que recebem acima do salário-mínimo (o ganho real é cerca de R$ 20) e o ajuste para o mínimo (R$ 1.518,00) para quem trabalha 6 horas (h) e 20 minutos (m) por dia, na escala de 6 dias de trabalho por um dia de folga (6×1). O “abono” proposto (que nada mais é que o valor retroativo a ser pago pela defasagem do salário desde janeiro) é de míseros R$ 460. Essa esmola está sendo alardeada pela AeC como “benefício” a ser pago antes da Páscoa, garantindo uma “compra de votos” com dinheiro do próprio operador. Nada é dito sobre o não recolhimento do INSS dos meses em que o salário esteve abaixo do mínimo, antes do reajuste.
Sobre o vale-refeição (VR) e o vale-alimentação (VA), a proposta de reajuste é de 4,77%, garantindo “espetaculares” R$ 0,46 de aumento (a ser pago somente em junho) para um “benefício” que atualmente é R$ 9,68, o que muitos operadores denunciam como insuficiente para se alimentarem. O Rio de Janeiro é a cidade com o valor médio de uma refeição mais caro do Brasil (R$ 60,46).
Além disso, está prevista a manutenção de pautas lesivas aos trabalhadores, como a cláusula 10 (X) do ACT de 2023 – que permite a escala 10×1 e tem sido utilizada para justificar a jornada 7×1 em alguns setores –, a proibição de utilização do banco de horas, a compensação por banco de horas das chamadas “folgas extras” (folgas “concedidas” no meio da semana para quebrar a sequência de trabalho por 7 dias seguidos, que é proibida por lei), a não validação de atestado de acompanhamento hospitalar do pai e da mãe, entre outras.
O que querem os operadores?
Além de um aumento significativo na porcentagem do reajuste, os trabalhadores exigem a redução do valor da mensalidade do plano de saúde (que por vezes chega a mais de R$ 300 só de pagamento mensal, fora o gasto com exames e consultas) e exigem que sejam revistas as cláusulas lesivas dos últimos acordos, de forma que a empresa seja obrigada a cumprir a lei. Exemplo disso é o fato de a AeC descumprir o artigo 386 da CLT, que obriga as mulheres a terem pelo menos 2 domingos de folga por mês – temos relatos de que é recorrente a prática de operadoras sendo escaladas todos os domingos do mês.
Diante desse quadro de aumento da precarização do ambiente e das condições de trabalho, os operadores da AeC não cruzaram os braços. Apesar das dificuldades, assédios e mentiras da empresa, eles têm se mobilizado e organizado para conscientizar seus colegas a não só rejeitar a proposta apresentada pela empresa – em conluio com o sindicato – como também ter sua própria pauta de reivindicações.
“Os operadores estão dispostos a ir até as últimas consequências, apesar das tentativas do Sinttel de agir como camisa de força para impedir greves e paralisações”, comentou um(a) funcionário(a) à reportagem. Eles prometem manter a mobilização, de forma a criar condições e cultura para que as próximas negociações não sejam mais realizadas a portas fechadas e para que todos os trabalhadores de call center conscientizem-se de sua força enquanto classe operária.
Publicado em: 2025-04-01 18:00:00 | Autor: Redação de AND |