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‘Não há espaço para blackface em uma sociedade que se pretende democrática’

‘Não há espaço para blackface em uma sociedade que se pretende democrática’

Divulgação

Tiago Soares, secretário nacional de Combate ao Racismo do Partido dos Trabalhadores

A prática de blackface – pintar o rosto de preto para caricaturar pessoas negras – não é um “erro inocente” nem uma simples “brincadeira de mau gosto”. Trata-se de uma manifestação histórica de racismo, profundamente enraizada em práticas que, desde o século XIX, serviram para desumanizar, ridicularizar e justificar a exclusão da população negra. Quando essa prática ocorre dentro de um espaço institucional como a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, a gravidade se multiplica.

O episódio envolvendo uma deputada alinhada ao bolsonarismo não pode ser analisado de forma isolada ou despolitizada. Ele expressa um projeto mais amplo que naturaliza o racismo, deslegitima pautas de igualdade racial e busca, constantemente, provocar e atacar conquistas históricas do povo negro no Brasil.

A tentativa de relativizar o ocorrido, sob o argumento de “liberdade de expressão” ou “intenção não racista” ignora completamente o peso histórico e simbólico do blackface. Não se trata de intenção, mas de estrutura. O racismo no Brasil opera muitas vezes de forma disfarçada, mas seus efeitos são concretos: exclusão, violência, desigualdade e morte.

Mais grave ainda é o fato de que esse tipo de conduta ocorre em uma instituição pública, que deveria zelar pela promoção da igualdade e pelo respeito à diversidade. Quando uma parlamentar reproduz práticas racistas, ela não fala apenas por si. Ela compromete a credibilidade da instituição e reforça a ideia de que o racismo é tolerado nos espaços de poder.

Esse episódio também evidencia a importância das políticas afirmativas e da ampliação da presença negra na política institucional. A sub-representação de pessoas negras em espaços de decisão contribui para a perpetuação de práticas racistas sem o devido enfrentamento. É por isso que medidas como cotas raciais, formação de lideranças negras e políticas de combate ao racismo não são privilégios, são instrumentos de justiça histórica.

Além da responsabilização política e ética da deputada, é fundamental que haja um posicionamento firme da Assembleia Legislativa, com medidas concretas que reafirmem o compromisso com a igualdade racial. O silêncio ou a conivência institucional apenas reforçam a impunidade e a continuidade dessas práticas.

Por fim, é preciso afirmar com todas as letras: não há espaço para blackface em uma sociedade que se pretende democrática. Combater o racismo exige coragem, compromisso e ação. E isso começa pelo reconhecimento de que práticas como essa não são aceitáveis em nenhum contexto, muito menos dentro do Estado.

A luta antirracista não é pauta identitári. Discordo de forma veemente, entendemos como uma causa estrutural; é um pilar fundamental da democracia brasileira.

Tiago Soares é secretário nacional de Combate ao Racismo PT


Fonte: pt.org.br

Publicado em: 2026-03-19 15:40:00 | Autor: Agência PT |

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