Há 50 anos, na região de Misiones, durante o regime militar do carniceiro Alfredo Stroessner, e a mando deste, ocorreu uma das maiores repressões contra os camponeses no Paraguai, fato que ficou conhecido como “Páscoa Dolorosa”. Em abril de 1976, o velho Estado paraguaio iniciou uma ofensiva de aniquilamento, prisões e torturas contra democratas e revolucionários, na cidade e no campo, atingindo principalmente as Ligas Agrárias Cristãs (LAC). Enquanto o velho Estado paraguaio tenta enterrar essa história sob o manto da “transição democrática”, a realidade no campo mostra que o terrorismo de Estado apenas mudou de farda para proteger o latifúndio e os interesses do imperialismo ianque.
A Páscoa Dolorosa de 1976 não foi um “excesso” isolado, como tentam afirmar os militares, mas uma política oficial de extermínio. O regime militar, que já se arrastava por 22 anos, temia o avanço da Organização Primeiro de Março (OPM), também chamada de Organização Político-Militar, e sua aliança com as Ligas Agrárias. O ex-comissário Camilo Almada Morel, vulgo “Sapriza”, um torturador treinado pelas forças de repressão, transformou a prisão de Abraham Cué em um verdadeiro campo de extermínio. Ali, camponeses foram submetidos a torturas e executados sumariamente sob o pretexto de “combater o comunismo”.
O impacto dessa repressão ressoa até hoje. Martín Rolón, liderança camponesa, foi preso em abril de 1976 e dado como desaparecido por quase cinco décadas. Somente através de investigações particulares em registros civis, sua família descobriu recentemente que ele fora executado com um tiro na têmpora apenas um dia após seu sequestro, no entanto, seu corpo permanece desaparecido. Esse modus operandi de prender, torturar e ocultar cadáveres foi aplicado sistematicamente em Misiones, Paraguarí e Caaguazú, visando decapitar a direção dos camponeses e garantir que o monopólio da terra permanecesse intocado para os parasitas do Partido Colorado, garantindo os interesses do imperialismo ianque.
As Ligas Camponesas e a Organização Primeiro de Março
Para compreender a Páscoa Dolorosa, é necessário entender que as Ligas Agrárias representavam um avanço na organização camponesa no país naquela época. Surgidas na década de 1960 em Misiones, as Ligas nasceram da necessidade concreta de 400 famílias em San Juan Ruguá que viam suas terras comunitárias serem roubadas pelo latifúndio. Sob a orientação inicial de jesuítas e influenciados por militantes da Juventude Operária Cristã (JOC), os camponeses compreenderam que apenas a luta contra o latifúndio poderia garantir seu direito à terra.
Através da Coordenação Nacional das Bases Camponesas Cristãs (KOGA), os “ligarés” implementaram as tomadas de decisão e a produção comunitária. Escolas rurais, onde o ensino era ministrado em guarani (proibido pelo velho Estado), e oficinas de confecção próprias desafiavam a lógica de servidão imposta pelo latifúndio. A estrutura das Ligas baseava-se na “minga” (trabalho coletivo) e em armazéns cooperativos que eliminavam os lucros dos atravessadores, ferindo diretamente os interesses econômicos das oligarquias locais.
O regime militar de Stroessner via com pavor o crescimento das Ligas. Naquele período, o Paraguai vivia um crescimento econômico ilusório sustentado pelos dólares da construção da Usina de Itaipu, mas a asfixia política era absoluta. O regime temia que a organização camponesa servisse de base para movimentos revolucionários, especialmente após o surgimento da OPM, que buscava unir a classe média urbana de Assunção ao campesinato.
Com o tempo, a percepção de que sem mudanças estruturais a libertação seria impossível, os setores mais avançados do campesinato buscaram alianças com o movimento de Assunção. A Igreja Católica, que inicialmente incentivou a organização camponesa sob a liderança de bispos, começou a se distanciar à medida que o movimento passava a defender posições mais combativas. O medo da hierarquia eclesiástica de perder o controle sobre as massas e a pressão do regime militar fizeram com que as Ligas perdessem esse apoio, com certo prestígio na sociedade paraguaia, no momento mais crítico da perseguição.
A OPM, embora fizesse uma tentativa séria e legítima de resistência armada ao regime, era composta majoritariamente por estudantes e intelectuais influenciados pelos Montoneros argentinos, guerrilha urbana peronista, carecendo de uma compreensão acertada do marxismo-leninismo, que na época já contava com as contribuições do Presidente Mao Tsetung, tinham pouco treinamento militar e uma estrutura clandestina precária. No entanto, sua mera existência, descoberta por acaso, antes mesmo de realizar ataques significativos, serviu de justificativa para que Stroessner iniciasse uma campanha de esmagamento que mirou todo e qualquer movimento social, tendo as Ligas Agrárias como o verdadeiro alvo estratégico.
A diáspora causada pelas prisões e execuções forçou milhares de famílias a migrar e enfrentar condições de extrema pobreza por décadas. O massacre da Páscoa Dolorosa foi, portanto, uma tentativa de aniquilamento do movimento camponês combativo em ascensão no Paraguai e uma forma de tentar sufocar qualquer esperança de revolução no país.
Porecatu e a Revolução Democrática – A Nova Democracia
Somente alguém imbuído de um elevado nível de autodisciplina poderia realizar o trabalho de fôlego que foi a elaboração do livro Porecatu – A guerrilha que os
O paralelo histórico: as Ligas Camponesas no Brasil
Traçando um paralelo com o Brasil, vê-se que a questão agrária era a ferida aberta que sangrava na América Latina. O movimento camponês brasileiro, encabeçado pelas Ligas Camponesas, nas vésperas do golpe de 1964, proclamava a urgência da “reforma agrária na lei ou na marra”. Diferente da experiência paraguaia inicial, o movimento brasileiro teve uma semente profunda no Partido Comunista do Brasil (P.C.B.) já em 1945. Essa direção, diretamente da clandestinidade, foi essencial para conformar territórios livres e históricos, como a luta armada de Porecatu e o governo próprio de Trombas e Formoso, liderado pelo herói camponês José Porfírio.
A experiência de Trombas e Formoso, em que camponeses repeliram ataques da repressão e garantiram títulos de posse pela força, demonstra o que as Ligas paraguaias também começariam a tatear: a necessidade da autodefesa. As Ligas Camponesas brasileiras, que começaram reivindicando o “direito dos mortos” a um enterro digno, logo passaram a exigir a liquidação definitiva das sobrevivências semifeudais no campo, atraindo a ira dos coronéis, dos militares e seu amo, o imperialismo ianque.
O desespero no EUA foi tamanho que o monopólio de imprensa The New York Times pintava as Ligas como uma ameaça apocalíptica, comparando seus feitos à Revolução Chinesa. Enquanto isso, o governo de João Goulart tentava uma via reformista, que ao buscar uma reforma agrária dependente da aceitação constitucional e do pagamento de indenizações aos latifundiários, Goulart, como era de se esperar, desprezou a mobilização popular e a necessidade da luta “na marra”. O resultado foi o golpe de 1964, onde as forças de repressão instalaram um regime abertamente fascista, esmagando as reformas de base para proteger o livro de cheques da “Aliança para o Progresso”.
No Paraguai, o regime militar seguiu o mesmo roteiro ianque com precisão cirúrgica. Em 1975, a comunidade próspera de San Isidro de Jejuí, que havia transformado terras desabitadas em um centro de dignidade coletiva, foi invadida por forças conjuntas da polícia e do exército. O local foi transformado em um campo de prisioneiros, e as terras foram entregues a familiares de Alfredo Stroessner. Este foi o prelúdio para a Páscoa Dolorosa de 1976. O regime militar, sentindo a ameaça do surgimento de movimentos revolucionários, vendo o exemplo da Guerrilha do Araguaia no Brasil, desencadeou uma caçada sem precedentes.
60 anos do golpe de 64: O Movimento Camponês combativo e a ameaça ao latifúndio – A Nova Democracia
Nas vésperas do golpe de 1964, a questão agrária era a mais urgente no Brasil. O movimento camponês sacudia o país proclamando por intermédio das Ligas Camponesas a exigência da “reforma agrária na lei ou na marra”, do fim da concentração de terras.
A continuidade do terror e a necessidade da Revolução Agrária
Meio século após a Páscoa Dolorosa, a realidade no campo paraguaio permanece marcada pelo terrorismo de Estado e o monopólio da terra pelo latifúndio. Atualmente, 77% do território nacional está concentrado nas mãos de apenas 1% de proprietários, enquanto mais de 300 mil famílias camponesas vivem sem chão. Esse monopólio da terra é garantido por uma aliança criminosa entre o governo paraguaio, o imperialismo ianque e o latifúndio de soja brasileiro que opera na fronteira.
A violência contra os povos indígenas e o campesinato continua sendo a política oficial. Recentemente, em fevereiro de 2026, uma intervenção criminosa da Polícia Nacional invadiu a Estância Americana, em Canindeyú, disparando armas de fogo e gás lacrimogêneo contra famílias indígenas. Dias depois, em Pindoty Porã, forças de repressão utilizaram balas de borracha e prenderam jovens indígenas que tentavam defender seu território, demonstrando que o judiciário paraguaio é apenas um cartório do latifúndio.
A militarização reacionária do campo ganhou um novo impulso em dezembro de 2025, quando o governo de Assunção assinou um “acordo de cooperação militar” com o EUA. Sob a justificativa falaciosa de combater grupos “terroristas” e “insurgentes” como o Exército do Povo Paraguaio (EPP), o acordo visa garantir a exportação de commodities para o imperialismo ianque e a manutenção do domínio territorial na tríplice fronteira, fazendo do Paraguai um “país base” do imperialismo na região. O EPP é utilizado pelo governo como espantalho para justificar a presença de tropas estrangeiras e o massacre de civis em áreas de “conflito agrário”.
Paraguai: Estado reacionário envia tropas especiais ao campo após sequestro de latifundiário por guerrilheiros – A Nova Democracia
No local do sequestro foram encontrados panfletos e um bilhete endereçado ao pai de Almir, que afirmava que o despejo de camponeses constitui uma “dívida de sangue com o povo”.
O EPP, fundado no norte do Paraguai oficialmente em 2008 como desdobramento do Partido Pátria Livre (PPL), surge dentro do contexto da resistência camponesa. O grupo, de caráter proletário, se define como marxista-leninista e se inspira na figura de José Gaspar Rodríguez de Francia, operando principalmente nos departamentos de Concepción, Canindeyú e San Pedro. Para os combatentes do EPP, a luta armada é a única resposta possível contra o latifúndio.
Após o desmantelamento do PPL, parte dos guerrilheiros reorganizaram-se sob a liderança de figuras como Carmen Villalba, afirmando que a via institucional havia falhado. Desde 2008, o EPP intensificou ataques contra a infraestrutura do latifúndio e do velho Estado, realizando diversas ações de sabotagem, incendiando maquinários e quartéis. A organização denuncia que a “reforma agrária” prometida pelos diferentes governos de turno é uma farsa.
Paraguai: Carmen Villalba, presa política, segue firme no cárcere contra o velho Estado – A Nova Democracia
Villalba permanece presa ilegalmente, e sua firmeza tem sido o combustível para uma ampla mobilização internacional.
No Brasil, o quadro de perseguição e criminalização é idêntico. O velho Estado utiliza os mesmos argumentos e táticas para criminalizar a Liga dos Camponeses Pobres (LCP), rotulando os camponeses de “guerrilheiros”, “terroristas” e “organização criminosa que a própria polícia teme enfrentar”, para justificar execuções covardes, como o recente assassinato do dirigente camponês Adeildo Gonçalves Calheiro, o “Flecha”, executado pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), e tantos outros.
Hoje, o cenário paraguaio e brasileiro é o espelho de um passado que se recusa a passar. O velho Estado, seja sob Stroessner ou sob o lacaio Santiago Peña, continua a ser o guardião do latifúndio. Os recentes ataques contra indígenas e camponeses provam que, para o povo do campo paraguaio, a atual “democracia” é uma ficção que não ultrapassa as letras mortas da lei, e a Revolução Agrária é o caminho para uma nova e verdadeira democracia.
Calendário 2026 – Liga dos Camponeses Pobres (LCP)
Como forma de apoio à luta pela terra em nosso país, temos a alegria de fornecer calendários 2026 temáticos produzidos pela Liga dos Camponeses Pobres (LCP)….
Publicado em: 2026-04-23 17:39:00 | Autor: Redação de AND |
